foto: André Nery - Folha PE
Nos últimos dias a gente tem e deve ficar bestificado com os relatos de violência policial. Da violência policial em Pinheirinho, São José dos Campos (que muitos exaltados dizem que foi um "massacre", enquanto a PMSP, reconhecidamente despreparada - como todas do Brasil, aliás - diz que foi "brilhantemente planejada"), fato que ainda precisa ser sensatamente apurado, para termos uma noção exata do que está acontecendo (tipificar como "genocídio" ou como "limpeza étnica" não ajudará em nada, só complicará). E da violência policial contra os estudantes pernambucanos na questão dos aumentos das passagens. Mesma violência que atingiu manifestantes do Piauí e de Vitória do Espírito Santo.
O principal questionamento que podemos levantar diante de tudo isso, há mais democracia, há mais repressão ou simplesmente não sabemos mais protestar? Pergunto isso pois fiz parte do movimento estudantil e sempre topei com gente meio maluca, que adorava confrontar soldados, sentir-se revolucionário ou anarquista, para lutar contra a "ditadura"... Nossos protestos perdem a legitimidade quando, ao tentarmos defender a menina que leva covardemente uma gravata arrancamos tijolos das calçadas para atirarmos nos soldados?
foto: André Nery - Folha PE
O óbvio é que policial, em qualquer lugar do mundo não encara uma manifestação como "ordeira e pacífica". Por mais "ordeira e pacífica" que ela seja, os caras estão sob tensão, porque estão preparados para que aquilo tudo degringole no caos. Então, qualquer movimento em falso é motivo para jatos d'água, spray de pimenta e outras armas "não-letais". A diferença, talvez, entre policiais estrangeiros e os nossos é a preparação; e o que vejo em muitos jovens (vivi minha vida inteira quase dentro do ambiente militar e tenho muitos amigos que são) que, ao entrar na PM, mesmo sabendo dos baixos salários e do risco, ingressam na corporação levados por um sadismo inato, fora um senso de corrupção já acoplado (se entrar num batalhão de trânsito já sabe que pode pedir propina de motoristas) que parece não ser detectados pelos psicólogos quando do recrutamento. Então, acreditem, são peças ideológicas que não reclamam das condições de trabalho, pois se há oportunidade de eles descerem porrada em "desocupado" e "vagabundo", tá tudo bem, o prazer é garantido. Parece absurdo, mas não é. Conheço um monte de gente assim.
Apesar de os nossos políticos gabarem-se tanto de terem colocado o Brasil como sexta economia do mundo, vários segmentos da sociedade simplesmente não conseguem racionalizar as questões sociais e daí que o senso comum acaba reproduzindo um monte de falácias que sempre tratam de tirar a legitimidade dos movimentos sociais. Estudante na rua? Tem é que apanhar pra voltar pra sala de aula! Sem-teto? Ah, devem ter um monte de casa, já, merece apanhar!A mesma coisa quando é um sem-terra, que só falta ser chamado de latifundiário... Canudos, a Revolta da Vacina, são exemplos esquecidos, pelo visto, da nossa eterna falta de desenvoltura para lidar com o social. Como lembrou um amigo meu, desde que Washington Luís, lá na década de 20 do século passado disse que questão social é caso de polícia, isso está tão impregnado no imaginário político brasileiro que, acredito, tal opinião ainda perdurará por muito tempo.
Nosso senso de comunidade é diferente de outros povos, nosso individualismo é terrivelmente insano para enxergar que o bem estar do próximo é parte de nosso próprio bem estar. Assim, grande parte da classe média paulista - que apoia Alckmin e suas ações crê que todos os moradores de Pinheirinho são bandidos e oportunistas que devem ser varridos - em todas as acepções possíveis - bem como até o mais pobre cidadão recifense, atingido pelo aumento das passagens, também vai chamar os estudantes que saem às ruas de desocupados. Só nos movimentamos quando somos atingidos frontalmente, num desastre natural (por exemplo, uma vez que nunca passamos por uma guerra em nosso território), e ainda assim fazendo questão de deixar claro o nosso lugar. Isso é o óbvio que todos nós fazemos questão de sustentar.
O absurdo é, com tanto exemplo de violência institucionalizada, e ainda nos gabamos da democracia que temos. Que democracia é essa, que faz com que elejamos continuamente aves de rapina que estão pouco se lixando para ideologias partidárias, que servem a si próprios e a outras minorias ricas, que perpetuam ideias retrógradas, preconceituosas e falsas?
O quanto de responsabilidade temos se numa manifestação alguém precisa de usar de violência? Quem alimenta discursos revolucionários ultrapassados e acaba dando lenha para a repressão do outro lado? Nós próprios temos de repensar nossas práticas políticas desde cedo, para não cairmos na esparrela de fomentarmos a violência de lado a lado. Assim eu acho.

