Cada vez que eu ouço, vejo, leio uma notícia sobre a escalada do crack nas grandes cidades (e agora nas pequenas cidades e até em localidades rurais) lembro-me da minha adolescência, quando o grande ato de transgressão era fumar um baseado de maconha. Sim, porque beber "socialmente" não é tão transgressor (a não ser que a pessoa fosse de uma família extremamente religiosa ao ponto de proibir o álcool em casa) e quase sempre é incentivado. Então, fumar maconha era até atraente (como imagino que ainda seja) por conta dos rituais de aceitação social de determinados grupos, apesar do risco de pegar uma fama de "maconheiro", com direito a choro e ranger de dentes na sala, talvez uma surra e aos olhares indiscretos das tias velhas que diriam "Fulano tá inrolado cum tóshico".
O fato é que a imagem de um usuário de drogas era estereotipada e estava muito longe de uma visão mais humana (que uma parcela significativa da sociedade ainda insiste em não enxergar), de alguém realmente doente (neste caso, o viciado contumaz), parte de uma estrutura familiar na maioria das vezes tão doente quanto, extensão de uma sociedade também doente.
E é aí que chegamos na encruzilhada: frente a essa escalada do crack, que possui uma dinâmica - como diz o pesquisador na reportagem - totalmente diferente de outras drogas e que envolve cada vez mais pessoas (até as que não consomem, como eu disse, a família entra no círculo do vício por outras questões) e até outros elementos econômicos como a desvalorização imobiliária (que pode ser até intencional, como denuncia a Associação dos Moradores dos Campos Elíseos, em São Paulo), como combater eficazmente isso?
Até porque o crack tem uma forma "camaleônica", por assim dizer. Se há o "paco", que se fuma como cigarros , aqui no Recife, por exemplo há uma variante, o chamado "viradão", no qual o mesmo ácido bórico que é usado para dilui-lo e ser enrolado na seda, por exemplo, é utilizado para transformar o crack em pó, e ser cheirado como cocaína. Daí, imaginem a balbúrdia que é, uma vez que o indivíduo chega no Pronto Socorro intoxicado pelo crack e pelo ácido bórico - que é usado comumente como formicida -, e a maioria dos profissionais não sabe lidar com isso. Não somente médicos, mas a polícia também e toda a estrutura de assistência social.
Tratar um viciado em crack como um bandido perigoso (quando na verdade quem mais corre perigo é ele, seja pela sua situação de abandono a qual se entrega, com os traficantes lhe cobrando - várias vezes acabam pagando com a vida - fora a própria saúde) é, no mínimo, hipócrita. Quantas vezes vimos um viciado em crack atropelar pessoas nas ruas, ou se negando a fazer o teste do bafômetro, como os motoristas que bebem deliberadamente e usam seus carros como armas? Tratá-los como endemoniados, como várias "organizações de apoio aos drogados", quase sempre de cunho evangélico (podem até fazer um bom trabalho, tirando a parte em que jogam fanáticos religiosos nas ruas), também não vai adiantar. O debate é amplo e para mim, a responsabilidade deve sim, recair no colo do Poder Público, uma vez que é questão de Saúde Pública, mas com a participação de todos.