sexta-feira, 29 de junho de 2012

Proibir, proibir


Não moro em São Paulo, mas sempre que posso passo por lá. É lá que eu tenho pessoas muito queridas, que às vezes estão mais presentes em minha vida do que muita gente com quem convivo. Gosto da atmosfera da cidade, dessa sensação legal de estar em um lugar cosmopolita (não que o Recife não seja, mas em São Paulo, convenhamos, é muito mais amplificado). Não sei se moraria lá, até porque o custo de vida é bem mais alto e as oportunidades, escassas. Depois, chega um momento da vida em que a vontade é ficar onde se tem raízes mesmo.
Já há algum tempo ouço amigos reclamando de determinadas posturas, não somente do próprio Poder Público, essa entidade que de alguma forma representa o pensamento do povo (ou pelo menos de parte que conseguiu eleger os seus representantes), mas também por parte da sociedade paulista. Posturas políticas e sociais conservadoras, muitas vezes até fascista, mesmo, algo muito em contradição quando se trata de uma cidade que evoca sempre o novo, o avançado.
Há no eleitorado paulista um estranho pendor para algumas escolhas estranhas. Se foi vanguarda em ter eleito Erundina numa época em que o preconceito contra a mulher era ainda mais agudo, já conseguiu ter como gestores outros políticos tão bizarros quanto ladrões (não sou eu quem diz, mas a Interpol) como Jânio Quadros (o bizarro) e o Maluf ( o ladrão).
Kassab pode não figurar entre o segundo caso (ainda), mas com certeza figura com louvor na categoria de bizarros. E tal bizarrice, para um político até outrora obscuro até para os paulistanos, é respaldada em uma série de medidas - chamemo-as de higienistas, mesmo - que atingem somente aqueles para os quais o Poder Público é praticamente ausente, e da pior forma.
Assim temos, na gestão Kassab, a proibição de fumar nas áreas dos toldos de bares(que corresponde a uma área externa - vá lá, até eu que não sou fumante acho estranho), proibiu artistas de rua, colocou paralelepípedos nos vãos dos viadutos para evitar que moradores de rua se abriguem e anteparos que impedem de mendigos de dormirem nos bancos... Se fosse pelo bem deles, como tanto afirma, beleza, seria até louvável, mas é uma medida que atende tão somente a parcela da sociedade que não querem a cidade feia. E a querem sempre limpinha para poderem brincar de New York dos trópicos.
Da proibição que foi cogitada ontem, a da distribuição gratuita de sopa, por mais que ele afirme que as tais nove tendas de "atenção social" (ou seja lá que nome for) de fato auxilie (o que não acredito, dado o tratamento já efetuado em prejudicar ostensivamente quem more na rua - que também tem o direito de não querer ir a um albergue) o estrago às iniciativas particulares de assistência já estaria feito. Primeiro em dizer que o alimento distribuído pelas ONGs seria "insalubre". Imagino que em SP, como aqui, o cuidado de quem se propõe a ajudar ao outro atinge também a cozinha, e ninguém vai dar comida estragada a quem quer que seja. "Ah, mas os mendigos sujam as ruas"... isso é uma balela, porque muito mauricinho joga lixo da janela do seu carro... depois, ao menos quando eu distribuía sopa nas ruas do Recife, além de simplesmente dar a comida, conversávamos com os moradores de rua acerca de um monte de coisas. Alguns não gostam de conversar sobre religião, por exemplo (o que motiva uma certa má vontade de pessoas de Pastorais ou grupos evangélicos que enxergam na distribuição de comida uma oportunidade para evangelizar), mas gostam de conversar sobre a vida (sobre pontos positivos, poucos falam dos motivos que os levaram às ruas).
A proibição, se for efetivada, também atinge a própria cultura de paz e da generosidade. Se o Poder Público chama para si a responsabilidade da distribuição da sopa (e como ele já falha em tantas coisas mais primárias, por que esperar-se-ia competência numa área em que já transparece uma notória má vontade?), que eco pais, educadores, por exemplo, encontrariam em crianças e adolescentes chamadas a cooperar na distribuição de comida e cobertores, em um justo aprendizado de humanidade. Por que, afinal, é muito fácil entregar tudo aos gestores e se eximir de culpa e de responsabilidade, sem praticar a aproximação com os menos afortunados, e com isso compreendê-los e extinguir preconceitos tolos que só a ignorância sobre o outro sustenta.
Espero que os paulistanos sensatos consigam a derrubada dessa proibição. São Paulo é muito bonita para ser tachada como a capital menos generosa do mundo.

9 comentários:

  1. Eu ainda não sei porque raios o Kassab faz isso com a gente. É inacreditável. Não sei como as pessoas colocaram essa criatura na prefeitura. Simplesmente não sei.

    Agora quer matar nossos moradores de rua de fome. Não basta não cuidar, ele simplesmente não quer permitir que os outros cuidem. Ainda bem que essa gestão está acabando, porque a tendência é piorar.

    Vai tarde esse já.

    Ótimo texto, Álisson.

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  2. Tive que ler o texto hoje de novo, porque no início da madrugada eu entendi as idéias mas não compreendi o geral...
    E não posso deixar de comentar: caramba, que texto bacana.
    Você falou de muita coisa que eu penso, mas nunca consigo expressar, sobre a dualidade de algumas culturas brasileiras. Além da paulista, a sulista as vezes também me assusta... Porque há sempre um misto entre o pensamento moderninho e o pensamento conservador; que nunca é notado por eles mesmos.
    Não que outras culturas/comportamentos regionais também não tenham suas incoerências... Mas acabo reparando mais quando o bairrismo e o preconceito contra as pessoas de outros estados se destaca.
    Meu pensamento sobre o ser humano, nesse sentido, é: todo ser humano é tosco, só muda o endereço.
    Nessas questões q eu to abordando no meu coment viajão, de bairrismo e talz, vejo que o pessoal do Sul e de São Paulo muitas vezes viaja com índices estatísticos e econômicos, e acha que o povo do estado é tão fodão qto os índices do estado. E nunca é... O coletivo sempre vale mais do que o individual, é a tal de sinergia. Tanto é que um bando de otários, se estiver bem coordenado, pode fazer algo mto bom.
    Daí chego na política... Tenho me sentido muito envergonhada com os escândalos políticos de Goiás, mas um lado meu fica querendo que tudo apareça logo, que eu morra de vergonha, mas que esteja consciente da realidade. Não quero entrar em negação.
    Vejo que os paulistas, muitas vezes, adoram negação. E assim como pessoas de outros estados, que muitas vezes vem me falar desse escândalo de Goiás, enquanto tá evidente que a Delta agia da mesma forma em trocentos estados.
    Eu quero acreditar que, se eu n fosse goiana, n ia tirar onda da situação como uma pessoa que vem de um estado superior... Mas ia chorar abraçada. Ou rir, abraçada, da desgraça.
    É o que faço com maranhenses... Conheço marenhenses espetaculares, é um povo inteligente, tem gente bem informada, é um estado como qualquer outro: a grande massa não se informa, não existem muitas opções de voto.. Enfim, a família Sarney domina o Maranhão, mas isso não significa que os maranhenses são todos alienados.
    E as pessoas dos estados que não se gabam do nível do escolaridade não precisam se envergonhar quando a maioria dos seus conterrâneos elege um cara tosquíssimo.. Porque a maioria dos seus conterrâneos leva uma vida alienante, não tem acesso a educação de qualidade ou informação, precisam trabalhar mais em condições piores...
    Se o cara se gaba dos índices do estado, tem que ficar com o triplo de vergonha quando o estado dele um cara tosco, ou quando apoia uma decisão vergonhosa. Porque se existe mais gente bem informada, se existe acesso a uma educação pública melhor, não há nada que justifique a alienação política, a burrice, a brincadeira com o futuro do país.
    Não fico puta quando fico sabendo que um cara pobre vendeu o voto por 50 reais, quer dizer, fico... Mas não fico tão puta qdo fico quando um playboy me diz que vai votar no Tirica por protesto....
    Enfim, não sei se consegui esclarecer algo... Mas voltando ao que você disse: cara, vc falou tudo. iauahauahau

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    1. Isso dá um post hahahahahaha mas adorei o comentário!

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  3. complementando: se o povo dos estados "fodões" em educação e cia continuar votando tão mal qto o povo dos outros estados... mais cedo ou mais tarde vamos uniformizar os índices de todos os estados, mas por baixo, e não por cima. =(
    obs: lembrando q ng é fodão no brasil, é só menos pior.

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    1. E é engraçado isso que você escreveu, porque às vezes acho que o pessoal daqui (ao menos da capital e das cidades médias do interior) é bem esclarecido... por exemplo, já vi expressões de desagrado contra casais gays, mas nunca vi agressões físicas ou verbais ostensivas, na política, apesar de haver umas figurinhas carimbadas que se revezam, o estado não é necessariamente de uma família como em outros lugares, e o pessoal acaba topando aquele conceito de alternância de poder. No mais, se há leis que proíbem a mendicância e a recomendação de a população não dar esmolas, não se coíbe iniciativas como a distribuição de sopa (eu particularmente não dou esmolas, acho que vicia)... Não vemos por aqui uma elite forte (como a paulista é) querendo ditar regras de comportamento ou conduta... há aquelas minorias religiosas que sempre enchem o saco, mas na maioria das vezes sabe guardar a viola no saco... acho que é isso que me faz gostar tanto daqui, uma consciência de que cada um tem o seu lugar e que isso é algo seu e ninguém vai lhe dizer como agir...

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    2. aqui nós temos uma elite alienada, mas não tão forte. o que curto, em Goiás, é que o pessoal da classe média tem a cultura do buscar conhecimento (ET Bilu é o cara)... em outros lugares é assim tb...
      mas pelo que tenho de vivencia, aqui o estudo e o esforço fazem parte da cultura geral, mesmo em classes "bem sucedidas" de pessoas que sabem meios de "acelerar" a subida... em geral, isso favorece a informação.
      mas como foi comentado, informação n é td...
      aí entra a parte que até então acho comum entre a cultura do Centro Oeste do Nordeste e do Norte: sabemos que n somos melhores que ng.
      Isso começa nas questões locais, como as que vc citou no comentário. No relacionamento com nossos conterraneos... Sempre vai ter um grupo de gt tosca, mas em geral, tem-se uma receptividade maior. Ainda que em Goias seja comum a cultura interiorana, o "escandalizar".. Nem por isso as ideias alheias ou de outros estados vão ser consideradas inferiores. O cara vai discursar contra a ideia, mas nao contra o "povinho". Preciso conhecer outros estados pra melhorar minha teoria, mas até onde conheço de pessoas e de lugares que visitei, sinto isso apenas no Centro Oeste, no Norte e no Nordeste.
      Isso influi no macro da questão, no bairrismo. Se aceitamos bem nossos "colegas" de cotidiano, os turistas e também as pessoas que vem de outros estados ajudar economicamente (elas vão ganhar dinheiro sempre, mas muitas vezes vao alavancar nosso desenvolvimento, por isso acho q o termo explorar cabe apenas em alguns casos), teremos mais condições de valorizar a nossa cultura sem desprezar a cultura alheia.
      Fugi do tema... Mas resumindo: seu post fala de coisas visíveis pra quem tá fora de São Paulo, que muitos paulistanos bairristas que adoram xingar o resto do país no twitter ou dizer que são paulo carrega o Brasil nas costas (daí entram paulistas tb) , não vêem.
      Como trata-se de um povo bem informado,ou que teve condições de ser bem informado e escolheu não ser, acho que qdo nao enxergam, nao enxergam pq nao quero.
      E não é algo q tenho como preconceito... Amo mta gt do Sul e do Sudeste, mas em geral eles não tem tanta percepção das limitações de seus estados, como nós temos dos nossos.

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