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segunda-feira, 19 de março de 2012

Mas e o amor às ovelhas?


Igreja é instituição. Instituição é sistema. Sistemas são operados por pessoas. E é aí que tudo pode desandar. De nada adianta uma escola pública padrão Harvard, se professores insistirem no padrão excludente, desleixado, humilhante dedicado aos estudantes pobres.

Mas o assunto é outro. Os senhores,  homens, ricos, humanos – e mortais, diga-se de passagem – que empunham os cetros de poder das igrejas como um todo, mas da Católica, em pauta, insistem em não reconhecer as necessidades do mundo, os problemas da modernidade e as urgências que a sociedade vive.

Eu sempre pensei que esse poder poderia ser colocado a serviço de um bem maior, que vai além de joelhos sobre o chão, de dízimos, de terços matematicamente rezados. O bom pastor, cuida das suas ovelhas. Dá amor a elas.

É impossível que em pleno século XXI caminhemos com esse atraso que parece não querer se desapegar da cultura punitiva do Antigo Testamento e ignorar os ensinamentos de amor do Cristo. O atual Papa convoca os sacerdotes a combater o que chama de “potentes correntes políticas e culturais que querem alterar a definição legal do matrimônio".

O que é legal? O que é família? E quando não há amor? E quando há violência? Até quando? Até que a morte nos separe?

Não recrimino questão de fé. Longe disso. Tenho a minha. Mas acho que as igrejas têm um grande potencial mobilizador e nesse sentido, deixa muito a desejar. Pra não dizer que vai na contramão da história. Fico imaginando uma campanha pelo uso de preservativos encabeçada pela igreja e quão imenso seria o seu alcance, porque há sim, quem ainda não use por vários motivos, que vão da falta de acesso e conhecimento ao veto religioso.

Por amor às pessoas e para combater efetivamente a graves problemas sociais que a igreja coloca atrás de sua nuvem de incenso, é preciso incluir, respeitar e não corroborar com a onda de violência da qual se utiliza, cotidianamente, a homofobia.

E ouso ainda dizer, sob o risco do apedrejamento, que os senhores que detentores do poder religioso, em suas relações que estamos cansados de saber que existem, também se protejam. Pelo bem do ser humano. Assim seja.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Tantos Galdinos



Aconteceu novamente. Causou espanto e revolta. Novamente. E novamente esfriará nas memórias do povo, da justiça, da discussão política e da educação, até que um novo atear de fogo venha esquentar a memória.

A lógica “saneante” de limpar os problemas das cidades, as mazelas da sociedade, povoa os dias, mesmo que não queiramos. Como resolver o problema da população de rua? Onde “esconder” os sem-teto que maculam o cenário turístico das metrópoles, quando se sabe que não há lugar para eles? Gestores resolvem com remoções. Violam o direito à cidade que cada indivíduo tem. Eles não ficam bonitos na praça, não cabem nos postais. São retirados e amontoados nas periferias, nas favelas, até que passe a alta estação e se espere da população nativa a aceitação de olhos fechados para aquilo que não quer ver.

Os olhos civis têm visto pela mesma lógica de limpeza do poder público. Com o diferencial da violência desinstitucionalizada, a agressão à vida, o apelo irracional, o ato que faz duvidar o pertencimento àquilo que se chama humanidade.

Outros Galdinos foram queimados. E são, cotidianamente, quando ignorados, invisibilizados, escondidos embaixo do tapete, de um banco de praça, de folhas de jornal: índios, moradores de rua, sem-teto, dependentes químicos, crianças de rua. Todos prestes à combustão diante dos olhos de uma sociedade que se nega a enxergar.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Moda do esporte - o UFC

Manchete de Ontem:  Diaz e Condit disputam o título dos meio-médios à sombra de St. Pierre
                                 UFC - Wikipedia




Não faz muito tempo, estava eu no twitter quando vi a hashtag #UFC no topo dos TTs. Logo fui procurar saber o que estava acontecendo aqui na Universidade Federal do Ceará. É que assim como sushi e cupcake hoje são obviedades do cotidiano de todo mundo e não fizeram parte da minha infância/adolescência, o UFC também não.

De novo estava eu lá, no twitter, quando vejo uma ex-aluna implorando por um link para assistir à luta que estava passando. E olha, parece que era uma lutinha básica, porque nem estava sendo transmitida em TV aberta.

A Wikipedia me mostrou que UFC nada mais é que Ultimate Fighting Championship, a maior organização de artes marciais mistas do mundo, onde os lutadores desse esporte praticam diferentes artes marciais, tais como jiu-jítsu, boxe, luta livre olímpica, boxe tailandês, boxe chinês, caratê, entre outras. Unha, fura-olho e joelhada nas partes baixas não são citadas.

O interessante é que não lembro de nenhuma mobilização nacional em nome dessas lutas individualmente. Mas a pesquisa também informa que a popularidade veio após a exibição em um reality show chamado "American Casino". Ah, tá.

Soube que os prêmios são milionários, bem como os ingressos, caríssimos. Nas transmissões que me dispus a assistir, vi, bem próximo ao “octógono”, (o velho “ringue”), muitas celebridades. Parecia camarote de micareta. Sem falar das tietes, achando um charme aquelas orelhinhas estouradas. Ai, se eu te pego!

O mais engraçado é que a luta durou menos de 1 minuto. Sinceramente, se eu fosse fã desse negócio, queria ver trabalho, muita luta, golpes, voadoras, supercílios abertos, o cara batendo no tatame pedindo socorro. Fazer valer o investimento, né? Mas não! Foi vapt-vupt e parece que é quase sempre assim. Isso deve irritar até o amado locutor que adora exercitar os fonemas alveolares enchendo o saco alheio.

Nada contra a modalidade nem quem gosta dela. Eu não curto e só. Mas acho curioso tão grande festejo de repente. E mesmo com tanto holofote e novidade, a “coroação”  continua sendo com aquele cinto brega, do bom e velho boxe... Tsc, tsc...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Na velocidade da luz

Não é de hoje. A vida é dinâmica e nada para de acontecer. O grande diferencial é a oportunidade que se tem de saber, com uma velocidade incrível, de tudo – ou quase tudo – o que acontece.

É uma enxurrada de informações que nos absorve e vicia. Carecemos de motivo para nos indignarmos, criarmos movimentos, protestarmos, festejarmos, escrevermos. Como sempre foi. Mas agora com mais rapidez, com mais frequência. Poucos movimentos resistem por muito tempo. O Rafinha Bastos perde o posto para o escândalo no BBB, a tomada do morro do Alemão cede espaço à tomada da Rocinha, que sai de cena para a tomada do Pinheirinho. As tsunamis recuam para os desabamentos no Rio. Isabella Nardoni. Goleiro Bruno. O yorkshire. Já não se tem mais tempo de sentir falta do Belchior e nem sei onde caberiam os 'pitis' de Amy Winehouse, caso estivesse viva.

Passei o fim de semana fora da cidade, acessando a internet apenas pelo celular, o que acho chato. Mas as machetes postadas causavam enorme desconforto, necessidade de saber amiúde, da notícia completa. De vez em quando lia uma 'chamada' para os amigos. Alguns se inquietavam, como eu, tinham sua curiosidade atiçada, tensos, até. Outros alertavam para a importância de se desconectar um pouco, deixar o mundo continuar seus giros e esperar, pois logo mais voltaríamos. Ora, até a Luísa voltou.

É tudo perecível. A sociedade da informação produz herois e vilões com incrível pressa e com prazo de validade determinado. Assim como um político corrupto, o comandante do navio tombado aguarda ansiosamente uma outra tragédia para sair de cena. Da mesma forma que um outro meteoro passará logo, logo sobre o sucesso do Teló, trazendo outra coisa pra gente reclamar. Ou não.

O texto não tem links. Buscar as notícias causaria loop infinito.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

E agora, São Tomé?

Essa postagem não tem links das manchetes-de-ontem. Ainda não consegui formar uma opinião sobre a importância de certos links, talvez pelo fato de alguns deles, aos quais me refiro, especificamente, terem me causado sensações nada boas, uma grande tristeza e aquela inevitável descrença no ser humano.

Não preciso ver para crer em tudo o que as pessoas são capazes. Mas o tal dito de São Tomé parece ter virado regra e as mídias sociais viraram a vitrine da desgraça, da carnificina exposta, um convite ao choque, um teste aos valores e tantas vezes um fermento para alguns instintos que até desconhecíamos. Têm colocado "no chinelo" os folhetins mais sensacionalistas e sangrentos. Aqueles programas policiais que tantos criticaram, agora acontecem o tempo todo, brotam de cliques de todos os lados.

Há duas semanas fiquei em choque após ver, mesmo que por pouquíssimo tempo, afinal vinha através de uma mensagem de "luto" propagada por alguns de meus ex-alunos, um vídeo de um acidente automobilístico bem perto de Fortaleza, onde um carro com 4 passageiros que vinha a 140km/h se chocou contra um poste e se dividiu em dois. Recuso-me a dar detalhes. Basta-me aquilo que não vou conseguir esquecer.

Na semana passada, a vez da brutalidade da enfermeira que espancou o yorkshire até a morte bem diante da filha de 2 anos. Mesmo me recusando ver, ao assistir uma matéria sobre a mulher na TV, várias cenas foram mostradas. Uma violência que em nada difere dos outros casos de babás que espancaram idosos ou crianças. Sempre uma estupidez diante de um ser indefeso. E lá estavam as câmeras a vigiar, registrar e mostrar para quem não acredita que isso seja possível. Enquanto do outro lado, os desejos de morte, e gifs de pitbulls raivosos para efetivar a "vingança popular".

É inegável que os registros têm o seu valor. Servem de provas. Mas o que me falta é estar convencida de que, além das autoridades, com poder de julgamento, alguém mais deva estar exposto a isso. O que isso nos causa além de choque, tristeza, desilusão e motivar mais ódio? No caso do vídeo do acidente, percebi essa discussão nos comentários do youtube. Alguns falando da violência das imagens, do desrespeito às famílias, da invasão, etc. Outros diziam que era a maneira mais eficaz de conscientizar, já que as campanhas não o faziam e a prova estava bem ali. Que aquilo, por mais doloroso que fosse, era um choque necessário e que muitas posturas seriam mudadas com as visualizações.
Enfim, esse é um texto sem opinião. Apenas chocado e lançado para as ponderações de vocês. É preciso ver para crer?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Do futebol e seus exemplos

                                 Malas da discórdia (vide comentários)

Foi a notícia de ontem. A morte do Sócrates. Lembro de nunca tê-lo conhecido por um futebol espetacular. Talvez por eu ser bastante jovem ainda pra isso. Mas ontem os textos internet a fora o apontavam como gênio. Tudo bem. Eu devo ter perdido essa parte. Mas não perdi uma outra. A que falava de um cara que não se limitou ao futebol e à vida que ele pode trazer. Bem diferente do que vemos hoje, onde os muitos craques aparecem mais em baladas e escândalos do que nos gramados, o Sócrates foi um cara que se expôs no movimento pelas Diretas e até no seu clube discutiu politicamente as regras. Isso sem falar numa formação acadêmica nada comum para um atleta pelas bandas de cá. Bem bacana.

E aí, a humanidade ávida por exemplos, sem a lucidez e a fortaleza necessária para desenhar seu caminho, já dá um jeito de julgar, apontando como uma morte cavada, escolhida, dada a vida que ele levava. Alguns outros já reivindicavam a criação da “Lei Sócrates”, que proibiria a publicidade de bebidas alcoólicas. Sem querer fazer apologia a coisa nenhuma, prefiro achar que ele morreu de tanto viver. Não poderia ser assim? Por que não aceitar a escolha de quem fazia algo que gostava muito e sabia, mais que muitos de nós, das consequências disso? Por que precisamos tanto de mártires, de herois, se já sabemos o caminho? Por que não fazemos de nós mesmos o exemplo do que pensamos ser correto?

Deve ser pelo fato de que os mesmos que julgaram e o transformaram em poucas horas num símbolo da luta contra os terríveis efeitos do álcool, estavam mais tarde, no horário da decisão do campeonato brasileiro, comemorando a queda do time rival para a segunda divisão como se tivessem conquistado o título, fazendo pipocar piadinhas, gifs, imagens que festejavam a tristeza alheia como se tremulasse a bandeira da sua vitória.

Somos falíveis, como o time que perdeu, como o Sócrates que errou a mão no vício, como o meu Botafogo que não foi pra Libertadores ou o meu Ferroviário, que não consegue sequer voltar pra série C. A medida entre as nossas paixões e a nossa palavra, entre a nossa conduta e o nosso discurso está um tanto desequilibrada. O placar não é nada favorável.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Meu grande amigo... o artista!


Manchete de Ontem:

Zezé di Camargo e Luciano contam motivo de briga durante show.                              

Sábado passado, Chico Buarque deu início, em Belo Horizonte, a sua nova turnê apresentando o disco “Chico”, tão esperada por todos os fãs de todo o Brasil.

Na primeira matéria que li a respeito, apesar de falar de um show de grande qualidade, a crítica sobre um Chico que limitou-se a interagir com o público apresentando os músicos da banda e com um “errei”, quando cantou errado uma música. O texto aponta para uma inevitável decepção do público, que esperava, de certo, por um Chico saudoso, amistoso, um velho conhecido que não via desde 2006.

É de nós essa coisa de querermos fazer parte da vida dos artistas que elegemos para acompanhar. Queremos saber de tudo, da vida, com quem está namorando, como vão suas finanças, como vai aquele processo de reconhecimento de paternidade, ou da pensão alimentícia, se parou de fumar ou se apareceu numa balada com indícios de excesso de álcool, ou quem sabe, alguma droga pesada.

Artistas são pessoas que possuem alguma qualidade, um dom, uma habilidade que os fazem diferentes de nós, algo que é bom a ponto de compartilhar. Mas compartilhar o dom, a arte, isso que ele dispõe público. Mas a gente não se contenta e quer mais. E alimenta, consome e sustenta uma mídia perversa que sobrevive dos detalhes da intimidade, que lança flashes nos lugares mais escuros por onde ele anda, ou mesmo na claridade do seu lar.

É óbvio que há também aqueles que procuram o centro do holofote para expor suas vidas. Seja por vaidade ou mesmo por depender da publicização da sua intimidade, de um ou outro escândalo para ter alguma notoriedade. Há quem não consiga resolver seus problemas em silêncio e lave a roupa suja publicamente também, como aconteceu no último episódio sertanejo.

É difícil pinçar o artista do resto do seu mundo. Mas fica bem mais fácil gostar, não correr o risco de se decepcionar, entristecer, lamentar com ‘detalhes’ de uma vida que não nos diz respeito. São tão humanos quanto nós e, portanto, falíveis também. Um pouco de simpatia, o respeito ao público, claro, são necessários porque a reciprocidade deve existir em qualquer relação, inclusive nessa. Mas creio que aproveitamos muito mais quando consumimos aquilo que o artista, deliberadamente nos disponibiliza: a sua arte.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A quem o sapato aperta


Neste último fim de semana, realizou-se, em Fortaleza, a 3ª Conferência Estadual de Mulheres, reunindo cerca de 800 delegadas de diversos municípios do Estado do Ceará com o objetivo de discutir as políticas públicas para o segmento em diversos eixos, traçar ações propositivas e eleger a delegação que levará à Conferência Nacional o resultado dessa discussão.

Para o espanto de muitas de nós, entre as delegadas estavam lá, alguns homens e travestis representando as mulheres de seus municípios e aqui nem vou tecer sobre a postura equivocada da Coordenadoria Estadual em se posicionar pela legitimidade dessas representações ao invés de reconhecer o erro de não ter orientado que apenas mulheres deveriam ser eleitas delegadas.

Muitos que leram até aqui devem estar questionando: “Mas qual o problema? Não é importante que homens e mulheres estejam juntos na luta contra o machismo e a opressão? Essas feministas... querem o oposto, inverter o preconceito!!!”. E eu lhes digo: não é nada disso.

É inegável também que as travestis precisam ser admitidas pela sua identidade social de gênero. Independente da questão biológica, elas se sentem mulheres e vamos caminhando, bem aos poucos, infelizmente, para que estas possam ocupar os espaços com a identidade que realmente as representa: a feminina.

O questionamento dessas duas representações, de homens e de travestis não é, em momento algum, uma retaliação pessoal às pessoas que ali estavam, mas a necessidade de reconhecer que quem deve discutir, elaborar e decidir sobre políticas para as mulheres são as próprias.

Um homem, por mais sensível e solidário que seja à causa, não tem propriedade para tanto. E não se trata de uma diferença imposta simplesmente pela genitália. Mas um homem jamais vai saber o que significa ser mulher, executar o mesmo trabalho que um homem e receber menos por isso, ou o que é dar conta de uma jornada de trabalho e ainda garantir os trabalhos de casa e cuidar dos filhos, ou ser vítima de violência sexual, verbal ou psicológica por conta da opressão masculina, de assédio no trabalho, ou ainda ser criminalizada pelo aborto, ser deixada morrer em muitos hospitais mesmo que seja nos casos previstos em lei, ou mesmo ser um objeto estereotipado de propaganda nas mãos da mídia, ou “simplesmente” discriminada enquanto dirige um carro.

Homens decidindo e representando mulheres, seria o mesmo que colocar brancos numa conferência para discutirem as políticas raciais, quando nunca sentiram o preconceito por ser negro. É como se colocassem padres – os mais modernos e libertários, se é que existem – para deliberar sobre as causas das travestis, discutir seus direitos e sua luta, quando nunca sentiram na pele o medo e o risco, ou mesmo as dores de serem espancadas, violentadas e mortas pela sua sexualidade, nunca foram motivo de piada ou escracho por usar batina. É questão de legitimidade, de propriedade, de saber e sentir onde o sapato aperta.

A luta é conjunta e que bom que todos e todas a abracem. Quanto mais estiverem desse lado, construindo o fim do preconceito e da opressão, mais passos daremos, mais fortes seremos. Mas os espaços precisam sim, ser respeitados, é preciso garantir o direito pleno à construção das políticas públicas por quem sabe o que sente e o que falta e as utilizará e isso não é uma contra-opressão. É a garantia de se sentir sujeito(a), de plenificar-se em direitos.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Fundamental é mesmo o quê???




Parece que aqui, na Espanha, ou no Sri-Lanka* as pessoas estão sempre à procura de um par, de um companheiro(a), da metade da laranja, da tampa da panela, do pé que calça o sapato velho.

Com esse mundo tão conectado, de tantas possíveis interações, ainda há quem se sinta só? Óbvio que sim. Algumas coisas não são conformadas com o uso de apenas alguns sentidos. É preciso o toque, o tato. Além disso, a convivência, o partilhar, dialogar, dividir e, por que não, o debater, discutir e junto a tudo isso, crescer.

Se considerarmos as possibilidades apenas pela tradicional, conservadora, bíblica e cristalizada divisão sexista, lamento informar, a coisa tá difícil. Há mulheres demais e as justificativas vão desde a perspectiva biológica ao potencial bélico de cada lugar.

Isso significa que se ampliarmos o campo de busca para a totalidade, procurando ‘pessoas’, simplesmente, ao invés de homens e mulheres e ao invés de buscarmos príncipes em seus cavalos e princesas em seus castelos o problema estará resolvido? Sinto decepcionar de novo, mas creio que também não. A busca não é aleatória e requer um perfil mínimo. Você quer uma pessoa legal, inteligente, interessante, que trabalhe (ou pelo menos que tenha disposição para), que queira construir junto, seja bem humorado, compreensivo, delicado, etc., etc., etc. E claro, se ainda sobrar espaço pra ser lindo de viver, tá valendo.

Pronto. Fechou o cerco novamente. De qual andar devo me jogar?

Na verdade, esse negócio de amor, relacionamento, namoro, casamento e afins, coloca qualquer Las Vegas no bolso. É aposta pura. É tentativa. É dar a cara à tapa. Se jogar mesmo e ver no que dá. Só a experimentação pode confirmar ou reprovar. Não há certificado de garantia, mas tem devolução, viu? O aparentemente perfeito, sacramentado em juras de eternidade também pode acabar. E diagnosticar que é hora de acabar mesmo, é tão importante quanto perceber que é hora de juntar. Não creio em nenhum Deus que queira a infelicidade de alguém que jurou amor eterno em algum ritual. Penso que o ‘eterno’ de Deus também é só enquanto dura.

E depois? Procurar de novo, oras! Ou não. Há, acredito, quem se baste. Só não admito isso como discurso vazio, arrogante, prepotente. Não há porque ter vergonha de não querer ser só e desejar sim, um parzinho de pés pra esquentar os seus. É recolher as fichas que tem e rumar ao jogo.

E pra você? “É impossível ser feliz sozinho”?


* Eu também não sei explicar o uso do Sri-Lanka toda vez que quero citar um outro lugar além dos que estão em pauta. Obrigada.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Rock in Rio - o contraponto

Rock In Rio

Veja a programação

Para ser bem verdadeira, acho que venho passando por um período iluminado e tolerante, que vem procurando ver um pouco além da fumaça, colocar na balança... Uma quase insuportável tendência à justiça. Então vou expressar um pouco do que tenho achado desse bafafá de Rock In Rio antes que eu mude de ideia. 

Quem não lembra dos questionamentos quanto ao "Rock In Rio Lisboa," apontando que alguma coisa estava fora da ordem? Todos sabemos, mas parecemos ter esquecido. O nome virou marca. Isso dá o direito de desvincular o evento do produto, do local. Pode ter axé no Rock in Rio, assim como ele pode ser em Lisboa ou no Sri Lanka. Assim como no sábado eu comi pizza na Churrascaria Espeto Gaúcho. Simples assim.

Também não é preciso ser um gênio da propaganda e das estratégias de mercado para perceber que o apelo à diversidade de público garante volume, presença, gente, DINHEIRO. Não é à toa que 100 mil ingressos diários foram vendidos.

Que não seja entendido como defesa nenhuma da Cláudia Leitte, até porque eu não tenho qualquer flanco de simpatia pela moça. Não é isso. E lembremos que ela não foi a única a pagar mico. Também não sei o tamanho do credito que dou à galera metaleira efusiva que vi ontem à noite. Falo da galera “twittermetal”. Aos bate-cabeça que estavam lá ao vivo, todo o crédito do mundo. Foi pesadíssimo!

Estranho também que os cult-bacaninhas de plantão que reclamavam a falta de rock, nada diziam sobre as atrações quase silenciosas como Tulipa Ruiz, Milton Nascimento e Bebel Gilberto. E olhe que ainda faltam Marcelo Jeneci, Joss Stone e Tiê, por exemplo. Talvez pegue mal falar que Marcelo Camelo, Esperanza Spalding e Mariana Aydar não fazem rock. Melhor velar.

Ninguém é obrigado a consumir o produto. É o público que faz, mesmo que indiretamente a programação. Desde sempre. Desde que jogaram latinhas no Carlinhos Brown em 2001. Se não tivesse ninguém que consumisse a música dele, ele não estaria lá.

Assim como governos, cada povo tem os festivais que merece. E eu tendo seriamente a acreditar que o que tem que ser revisto mesmo são os gostos, o acesso à cultura, a produção, o poder da mídia em criar celebridades instantâneas, etc, etc.

Se considerarmos a Cláudia Leitte ou qualquer outro axé ou coisa que o valha o próprio desastre, o que dizer da multidão que os segue num trio desses de micareta por aí?

Toda crítica é válida e legítima. Sempre. Mas acho melhor quando ela se amplia num diâmetro maior que o do nosso umbigo. Pelo menos tenho achado assim. Quem concordar, aproveita, que pode ser por tempo limitado e no próximo fim de semana posso estar falando mal do show do Martinho da Vila...

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Cabe em nossas cabeças???

Manchete de Ontem: CRM da Paraíba apura denúncias de uso de furadeira em cirurgias de crânio


Nesse universo de piadas prontas, de imediato poderia falar do povo “cabeça dura”, das insistências históricas, daquilo que não muda, da tal ordem “natural” das coisas, do cristalizado, enfim. Mas há algo mais forte como pano de fundo. Há o serviço público como mote da piada, e mais que isso, na saúde, onde a corrida deveria ser pelas melhores condições para salvar, onde nada, absolutamente nada, poderia servir de motivo para piada.

Mas independente da manchete, das justificativas dadas pela equipe, das negativas, enfim, o que eu queria chamar a atenção mesmo era para a intervenção individual, humana, dos “CPFs” que participam dos processos e que tantas vezes fazem com que os sistemas pensados sejam alvos de críticas, de insatisfações e por que não, de piadas.

O “Ronda do Quarteirão”, por exemplo, sistema de polícia comunitária que atua aqui em Fortaleza, é um modelo exitoso copiado do Japão e do Canadá.  Uma polícia chamada “cidadã”, que deveria ser amiga e conhecida da comunidade, já que atua com um raio restrito, então, com condições de constituir vínculos de confiança. Mas não é bem assim. O “Ronda”, como sistema, não funciona ao apertar de um botão, fazendo tudo acontecer “à japonesa” ou “à canadense”. O Ronda, como qualquer outro sistema, é feito por pessoas, por gente, que carrega a sua bagagem de vida, suas querelas, seus traumas, além de suas habilidades e inclinações – ou não - para o trabalho.

Não é à toa que atos arbitrários, violentos, desregrados são registrados contra a equipe que compõe o “Ronda”. Instituir tal corporação, certamente, demanda uma intensa formação para que a atuação seja de acordo com o modelo pensado. E isso ainda não é garantia de que dê certo. O sistema é feito de gente, a coisa é humana, é corruptível, até certo ponto imprevisível e pode surpreender, ora para o bem, e outras tantas, infelizmente, para o mal.

Não diferente é o que acontece no campo das compras públicas, das licitações, quando as obras, as aquisições são pensadas de uma forma e acabam sendo executadas ou adquiridas de outra. Os projetos são bonitos e parecem atender às necessidades da população, mas de novo o elemento humano burla aquilo que parecia ser retilíneo, óbvio, correto e que conduziria a um ato eficaz.

Em suma, não adianta escolas bem equipadas com professores que não respeitam os alunos, transporte público moderno, onde os motoristas não respeitam as limitações de idosos e deficientes físicos, hospitais com tecnologias de ponta, onde os pacientes são ‘des’tratados. Bem como não há como manter tudo isso com qualidade se tais profissionais não têm o seu valor garantido, seus direitos respeitados.

Analisar qualquer questão dessas por um único ângulo denuncia nossa limitação em compreender o todo, em enxergar além da fumaça. Nada funciona automaticamente e a responsabilização também não pode ser automática.

A teia é densa, grandiosa e intensa e ver de fora, atirar pedras e militar no conforto de nossas cadeiras diante do computador pode não dar conta. Agir assim pode ser irresponsável, pode ser tiro no pé, pode ser “Bosh” na cabeça...

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O que move essas pessoas?

                                 O que será que move essas pessoas a tal?

É quase uma discussão foucaltiana. A vigilância, antes temida, debatida e questionada, hoje, para a maioria é desejada. A internet é ferramenta generosa à mão daqueles que querem por tudo aparecer, virar celebridade, se expor para o mundo, ainda que o mote para tanto seja o ridículo.

Mesmo os que se preservam no anonimato ou mantêm relações limitadas nas redes, não resistem a um clique ou a um comentário sobre tais figuras. E muitas vezes elas conseguem o desejado: explodem num “sucesso” causado não pelo talento, mas pelo riso desdenhoso, acompanhado pela dura crítica e o lamento. Valerá a pena?

O “efeito Stephanny”, aquela do Cross Fox,  fez escola. Hoje Edinéia Macedo é uma explosão no youtube, compartilhada nas redes, postadas no facebook (até por mim), chegando inclusive à grande mídia, sendo pauta no blog do Zeca Camargo. Pra quem não conhece a moça, ei-la:


Edinéia “produziu” uma série de clips, que combinam uma coreografia desconsertante com uma composição pra lá de duvidosa, recheada de erros gramaticais, desde o verso inicial “as hora já se passou”.

E ela não está só. Óbvio que não é a única a querer mordiscar seu espaço nessa constelação. Outro exemplo pitoresco, vem lá do Recife, apenas como demonstração da longa lista que não demanda qualquer trabalho para ser encontrada:


O que move essas pessoas? Confesso o receio em ser injusta e achar que tudo isso é vontade de aparecer – ainda que pela auto ridicularização – e pronto. Não consigo afirmar até que ponto não existe uma crença de que isso realmente seja bom e vendável. Talvez os números de acesso, para eles sejam o indicativo de ir adiante. Até que ponto, por trás dessas figuras aparentemente sem talento não existe nada além de um sonho?

Uma coisa é certa. Há quem goste. Nem que seja pelo riso inevitável. Se você gostou, faça como a Edinéia e REBOLA XUXU!!!


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Originalidade urgente!


Há alguns meses vi que um desses programas de auditório estava realizando um concurso de imitadores.

Imitar: v.t. Copiar; reproduzir; arremedar; plagiar. i.mi.tar

Nesse mesmo programa, um garotinho dizia de olhos brilhando que seu sonho era ser igual ao Justin Bieber. Senti dó. É querer muito pouco para quem tem uma vida inteira pela frente. Seja pelo ato de imitar, mais ainda por ser o Justin Bieber. Zero no quesito ambição.

E aí, que tem um campeonato mundial dessa modalidade de ser igual, de não ir além, de não criar, e não usar os parcos 10% da inteligência que a espécie é capaz. É um contentar-se com pouco, em ser bom em fazer aquilo que alguém já fez, na máxima perfeição, excluindo qualquer possibilidade de inventar, de dar o seu ‘toque’, de colocar a sua reflexão, a sua crítica, o que seja.

Assim, num efeito gremlin, pipocam por aí Justins, Restarts, Luans e outras pérolas (sic) mais.

Ah! O Brasil foi campeão. Quem comemora?

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Abraços Suspeitos

Manchete de Ontem:  SP: polícia prende assaltante que abordava vítimas com abraço
                                  Professor distribui 2.011 abraços para bater recorde em SP


Fosse um beijo, era Judas, bradariam os folhetins sensacionalistas. Mas não, foi um abraço, esse gesto confortante, solidário, aconchegante, necessário e que sugere até rimas.

O amoroso indivíduo se aproveitava da fragilidade e da carência que castiga os viventes do mundo contemporâneo, oferecendo um abraço apertado em locais movimentados, onde a única suspeita que levantaria seria a de um ou outro gélido coração a se perguntar: “quem ainda troca abraços no meio da rua hoje em dia???”

E era então, que carinhosamente ele sussurrava no ouvido da acarinhada vítima que se tratava de um afago, digo, de um assalto, levando dinheiro e objetos de valor.

O crime não tem alma mesmo. Não cogita, nem se importa que aquele abraço, a princípio sem qualquer ameaça, poderia ter sido o motivo do sorriso de alguém naquele dia.

Diferente do “miguxo” acima, um professor de Ribeirão Preto saiu distribuindo abraços por aí, e dessa vez, sem um fim trágico. Isso sim, não é? Nem tanto. O amigo docente não estava abraçando pelo calor do amplexo ou para distribuir gentileza como único fim. Ele precisava dar três mil abraços para entrar pro livro dos recordes e não sei se ele se empolgou e acabou demorando muito a cada abraço ou se simplesmente não tem lá muito tato com a coisa, mas o fato é que não conseguiu atingir a marca.

Alguma coisa está fora da ordem...


segunda-feira, 18 de julho de 2011

Bem, amigos da Rede Globo!

                               Documentário denuncia Ricardo Teixeira por corrupção.

Não deu pra escapar. O futebol de ontem vai render por essa semana. A síndrome de Roberto Baggio que atacou nossos batedores de pênalti, a síndrome de salto alto das “revelações” do futebol brasileiro, a síndrome dos cortes de cabelo bizarro, a síndrome do gramado arenoso e a síndrome de falta de justificativas plausíveis realmente prejudicaram a “nossa” seleção.

Quem quiser se incluir nesse “nossa”, fique à vontade, mas eu tô fora, cara pálida. Todo mundo viu, depois da copa, a Globo destituir o Dunga dada a sua posição firme de não ceder à intromissão da Vênus Platinada, transformando-o no grande vilão do mundial para os brasileiros.

Semana passada, enquanto o Fantástico mostrava as pessoas sendo contagiadas pelo emagrecimento do Zeca Camargo e da Renata Ceribelli, a Record exibia um documentário que desmascarava o intocável Ricardo Teixeira, exibindo outro documentário da BBC de Londres, que aponta propina, dentre outros desmandos. Mas isso não reverbera. A dieta dos âncoras parece continuar sendo mais importante, no país do futebol.

País do futebol de Ricardo Teixeira, que é o futebol da rede Globo e que ecoa nos nossos tímpanos pelos gritos do locutor e maior autoridade em comentário esportivo. O time cheio de “erres” e aves tão festejado pelo Galvão Bueno fez feio, é feito de estrelas individuais que não sabem o que é constelação. Se falta maturidade e humildade, é porque esse tipo de mídia também contribui e muito com os rituais de exaltação desses meninos que ficaram ricos e viraram mitos muito cedo.

E o Ricardo Teixeira manda mensagem de apoio a Mano. Todos “bem amigos da Rede Globo”. E nós, brasileiros-técnicos-por-natureza de plantão, nos contentemos com nossos pitacos entre uma cerveja e outra, porque quem entra, sai, sobre, desce... Não é pro nosso bico.